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domingo, 5 de setembro de 2010

Ensaio

Olhares cruzados, tempo parado
O cenário está preparado mas nós não
O texto está decorado com o medo
E a ansiedade por aquilo que não será dito

E o silêncio se torna tão ensurdecedor
Que vai preenchendo cada espaço de nossas mentes
E o vazio se torna tão espaçoso
Que esmaga cada palavra contra os limites da razão

Cada movimento já foi tão ensaiado
Que deveriam estar acostumados a entrar em cena
Mas a hora da verdade é a que mais favorece mentiras

E o nada cai como bombas sobre nossas cabeças
Fazendo soar dos nossos olhares reticências
Que vão infinitamente além dos três pontos.



Classificados

Procuro acompanhante chata, senso de humor zero. Não deve ser bonita, nem feia. Não deve saber dançar ou cantar. É fundamental que não possua muitos conhecimentos literários, não conheça muitos filmes e esteja alienada dos fatos cotidianos. É imprescindível que não possua uma boa condição financeira. Não deve, também, ser fã de esportes ou de espetáculos culturais. De preferência, que não seja de falar muito, mas que também não seja quieta. Não deve ter olhos azuis, verdes, castanhos, cor-de-mel, cinzas ou pretos. Não pode ser alta, mas também não pode ser baixinha. Nem madura, nem inexperiente. Nem nova, nem velha. Mulheres passivas e de atitude também não interessam.

Enfim, tem tanta gente interessante no mundo, tanta gente que dança, canta, atua, corre, pula, joga, rouba, ganha, pinta, fala, ouve, aconselha, estuda, encanta, beija, chupa, dá e trepa, que eu fiquei indiferente a elas. Hoje está tão difícil de encontrar alguém que não seja interessante que o que realmente me interessa é o que não tem graça alguma.



domingo, 27 de junho de 2010

O ódio.

O que lhe receito é ódio,
Ódio sóbrio e comedido
Para viver nesse mundo arredio
É preciso querer destruí-lo

Ter calma é sinal de alienação
Esperança é sinal de fraqueza
E por acreditar em compaixão
Que muitos já perderam a cabeça

O paciente está andando a esmo
A ele digo, piedoso, apenas
Se o queres bem feito, faça você mesmo

Já o ódio, se bem usado, é a força suprema
Que atinge ao final todos os objetivos
Nem que para isso precise dizimar centenas.


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domingo, 13 de junho de 2010

Ligação.

Você reclamou por que eu não ligo.
Disse: "Foi viajar e nem sequer ligou!
Não ligou pra dizer que ía, nem quando vinha
e eu aqui só imaginando o que tu fazias".

Depois disso me lembrou que eu não liguei.
Nem mesmo quando o dia era nosso, liguei.
E quando me disse, nem achei que fosse sério,
mas não liguei em sua primavera, è vero.

Não liguei pra desejar um bom dia dos amantes,
ainda assim está tudo como antes, com diamantes
no seu céu, por isso não me trate assim como réu,
pois se não ligo, eu sei, o problema não é só meu.

Enfim, lhe peço, por tão pouco não se esquente,
é tão melhor que isso fique apenas entre a gente.
Pois se não ligo, não é nada pessoal meu bem!
O fato é que eu não ligo pra ninguém.

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Post Original: http://afeeense.blogspot.com/2009/07/voce-reclamou-por-que-eu-nao-ligo.html

sábado, 29 de maio de 2010

Simplicidade (ou uma simples cidade).

Aquela cidade que não cabe no mapa,
Aquela lembrança que não cabe na memória,
Aquele amor que não cabe no peito,
Aquela idéia que não cabe na cabeça,
Aquela emoção que não cabe na lágrima,
Aquela tristeza que não cabe em mim,

Tudo isso cabe nesses poucos versos,
Bem simples assim.

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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Drama de um cético

Para o cristão, o Santíssimo reservou um lugar
Onde sua alma limpa e virtuosa descansará
Depois que seu corpo cansado voltar ao pó
E por isso não teme, pois jamais estará só

O budista traça o caminho de Siddartha
Ele conduz pelo rio da vida sua jangada
E quando se liberta de sua parte humana
Quebra a roda do carma, enfim o Nirvana

Adornos de ouro, roupas de seda, rios de mel
E dúzias de brancas virgens para escolher
Eis o que aguarda os seguidores de Maomé

Mas já o cético, este pobre idiota que não crê
Há de viver perplexo, carregando a sina de Tomé
e morrerá decrépito, esperando ver para crer

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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Pilha

Estava uma pilha
Dessas que você compra no supermercado
Tinha energia pra dar e vender
E não tinha vergonha de usar

Mas o que não percebeu
É que essa energia tinha um preço
Que ela tirava sua liberdade
E o desgastava quanto mais a usava

No dia seguinte ainda era uma pilha
Porém uma pilha diferente
Era uma pilha de nervos
Num corpo que não passava de uma pilha de entulhos

Entulhos pilhados do que sobrou da noite
E também do que sobrou do homem
E no final teve o mesmo fim que toda pilha

Foi parar no lixo, descarregado.


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segunda-feira, 19 de abril de 2010

Monocromia

Cinza. O dia amanheceu cinza. Tudo estava cinza. Cinza da cor da fuligem. Cinza da cor da neblina que cobria o dia. Cinza da cor da fumaça dos cigarros e da pele dos fumantes. Cinza da cor dos automóveis, dos edifícios. É difícil, acredite. O cinza tomou conta do ar, das roupas, das ruas. O cinza estava presente nos olhares, nos pensamentos, nas memórias. O cinza era um só com os corações.

Mas d'onde veio esse cinza? até ontem ele não estava aí! Será que ele veio das fábricas? Ou talvez tenha vindo das casas. Da lenha que espanta o frio, talvez? Quem sabe não choveu cinza a noite toda enquanto eu dormia? Possível, por que não?! Provável, não sei dizer. Ele pode ter vindo pelo ar, e então não seria bom nem respirar. Talvez o cinza tenha vindo de fora. Talvez o cinza tenha vindo de dentro. De mim.

Bom, mas de que adianta o cinza? De que adianta saber d'onde o cinza veio e pr'onde vai? Talvez se eu dormir agora, amanhã o cinza tenha ido embora. É isso! Vou dormir agora. Afinal, enquanto eu tento entender o cinza, a negra noite se desenrola e amanhã é dia de branco.

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